Cruel e nociva
A dúvida é motor e semente
Forte condutor
Misterioso como sinais eternos
As esfinges que me encaram
Olham de perto para o meu sagrado
E claro mesmo é o profano
O raso, o corpóreo
Claro
E menos belo
Raso
Com seus limites definidos
Corpóreo
E, por natureza, menos eterno
Que ato é esse
No qual celebro
Ardente
Mente
A minha vida?
Que constata
As frestas mais tímidas
(que são também as mais profundas...)
A cada desnível
Admiro a carne vermelha. Viva.
Viva!
Salve as dores, os males, os cortes
Que me fazem crescer
Salve as derrotas, as ameaças
O pranto salvador
E perdoa minha falta
A incapacidade de ser segura
E de segurar
Desculpa a minha alegria em falta
Desculpe pelo prazer do cirurgião
Por buscar o corte
Retirar o órgão
Sentir a falta
E descobrir que o que me faltava
Era a leveza do não preenchimento
Era o prazer das épocas de fome
A febre da escassez
Ah, doce mistério!
Que se faz presente
Em lindas nuvens de purpurina...
(Recife, 12 de novembro de 2009)
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Doce mistério
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Cínica (Ivan Lins/Joyce)
De tanto que calei perdi a voz
De tanto que esperei olhei pra nós
Olhei, mas não me vi.
Parece que sonhei
Parece e que sumi
Parece que fiquei mais mínima
De tanto que chorei o olhar secou
De tanto que te amei o amor cansou
E sem voltar atrás
Até me achei capaz de decisões finais
Parece até que fui a única
Na primeira hora não foi fácil
Era tanta falta de você
Era uma saudade misturada
De tudo, de nada
De tanto te esquecer me renovei
De tanto te perder já me encontrei
De tanto que parti parece que cheguei
Parece que aprendi
Parece que fiquei mais cínica
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terça-feira, 22 de setembro de 2009
O carpinteiro do universo observa, atônito, o curso da vida
De cima observo a água fluir... Danada, tem mania de descer por onde é mais fácil. Eu pelejo, faço figa, torço o quanto eu posso e ela não muda o caminho.
Não sobe a pedra seca, não se curva para os caminhos que não a recebem. E, aos poucos, neste bailado sábio, firme e incansável, vai tornando tudo ao seu modo. Escava caminhos, abre frestas, faz crateras, impávida e afoita.
Me canso de fazê-la mudar, de chamá-la para subir onde estou e refrescar meu rosto cansado de querer mudar o curso fácil e tranquilo das coisas.
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domingo, 20 de setembro de 2009
Eu queria saber...
Por que os poetas bebem?
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quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Assobio de vento
Cessam as palavras. É apenas nó.
Cego, não consigo desatar
Minha alma que dançava, dói
Na tentativa de existir severamente
Recolho minhas partes
Nada veio comigo
Espero para ver se eu volto
Peço para que tudo faça um bom sentido
Nada vem, nada vai
Apenas, preso, o sopro da tempestade grita.
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domingo, 13 de setembro de 2009
Ir-se-ão
Faz que está.
Estarão em vida.
Em vida se é e se preserva em ser-se
Se manifesta, se nasce em sentir-se.
Eis, então, o movimento do ir-se
Do poder ir-se,
Do porder-se ir.
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Impermanência e caos
E se a vida nos pega insistindo, das mais variadas formas, para que nos entreguemos à impermanência, por que motivo ainda assim nos agarramos em ilusões sofridas, fotografando o passado e o contemplando? Parece um movimento melancólico de fuga da maior das assombrações: a percepção de que nada é mais, pois já deixou de ser e nunca será novamente.
É preciso realizar um rompimento corajoso na barreira do espaço-tempo de minha vida. Um rompimento doloroso, mas imperceptível. Ato que insiste em se travestir de sacrifício, em morte e dissolução. Mas que é a única possibilidade de dar sentido ao caos das coisas.
E, se perceber, pensamento e sentimento, quem sou e onde estou, o destino surge de maneira tão espontânea quando o abrir dos olhos após piscarem.
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